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Vamos falar de emoções?

Quem nunca sentiu medo? E tristeza? Sabem como as emoções nos influenciam?

Os pacientes de difícil acesso, como são consideradas pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline, não possuem uma identidade completamente consolidada (nem um ego bem integrado, o impacto de suas defesas primitivas, como a cisão e a dissociação), o que faz com que eles sintam seus padrões internalizados de relacionamentos como totalmente bons ou totalmente maus.

 A experiência psicológica desses pacientes de si mesmo e dos outros acaba se tornando polarizada e intensamente carregada afetivamente, levando a vivências caóticas e alternantes de idealização e persecutoriedade (ou desvalorização).  Causam, assim, uma distorção da realidade interpessoal, e, no contexto de estados afetivos intensos, a capacidade de auto reflexão torna-se mais limitada.

 Quanto mais carregados afetivamente forem seus relacionamentos internos e quanto menos integrados, mais eles serão dissociados da sua consciência.

Isso faz com que a forma de pensar, sentir e se relacionar desse paciente seja distorcida, e grande parte deles apresentam formas de comunicação não verbal muito disruptivas. Não se sentem autorizados a falar de emoções e sentimentos.

 Por isso falar de emoções torna-se de extrema importância no trabalho com esses pacientes. Ajudá-los a identificar e nomear emoções e sentimentos em si e nos outros pode favorecer uma melhora das condições de comunicação, possibilitar uma reflexão que contribua para um aumento da capacidade de pensar antes do ato, com consequente redução dos comportamentos impulsivos, assim como melhora nas relações interpessoais. 

A emoção é uma via de acesso a esse mundo interno de nossos pacientes.

Somos profissionais que, para cuidar da saúde mental, trabalhamos em relações. No encontro com nossos pacientes no setting terapêutico, local onde se dá a implementação de um ambiente estável, seguro e de confiança, a relação terapêutica só é capaz de se enveredar porque estamos lá com nossa disponibilidade e sensibilidade para, através da palavra, da comunicação e também dos afetos (de nossa contra transferência), auxiliá-los a se sentirem compreendidos. Possibilitamos a criação de um espaço para que os pacientes possam comunicar tais emoções e sentimentos.

Observamos que também é possível trabalhar com emoções em grupo. Nossa equipe criou e desenvolve um trabalho no ambulatório que trata de pacientes de difícil acesso num serviço público de saúde mental de nível quaternário, trabalho este estruturado em 7 emoções principais.

 Parece fácil, mas nem sempre é, nomear emoções, sentimentos e sensações, assim como diferenciá-los. Além de nomear, a definição também não é fácil; e, se formos em busca de alguns teóricos, poderemos encontrar informações muito diferentes entre eles. 

Melanie Klein, uma psicanalista inglesa em quem fundamentamos também a nossa teoria, em suas observações de bebês, percebeu a existência de sentimentos inatos presentes na relação dos bebês com seus cuidadores. Entendemos então, através desse olhar da psicanálise, que as emoções surgem precocemente no bebê, e a forma distorcida do paciente pensar, sentir e se relacionar tem em uma de suas origens a fixação em memórias emocionais precoces juntamente com a relação estabelecida em seus primeiros anos de vida com pessoas importantes em sua vida.

 Elegemos assim 7 emoções para desenvolver nosso trabalho, 5 emoções primárias e 2 sociais, e que possuem como finalidade entre si a manutenção da vida.

 Definimos emoções como sensações físicas presentes, que podem ser vistas por outras pessoas, como rubor das faces, tremor, palidez, suor. Vem conosco como um pacote de sobrevivência, nos fazendo responder rapidamente a certas situações. Quando são processadas viram sentimentos. Essas emoções que nomeamos são:

ALEGRIA: emoção vinculada à pulsão de vida, isto é, aquilo que nos impulsiona em direção a coisas positivas, a desfrutar de prazeres e de experiências.

TRISTEZA: pode aparecer quando se perde o gozo (ou satisfação que o indivíduo possa ter), ou quando se é afastado dele. Leva à manutenção da vida quando nos afastamos de algo que não nos gera prazer ou gozo

NOJO: Evita que entremos em contato com alimentos estragados, ou objetos e coisas infectadas que possam colocar nossa vida em risco

MEDO:  O medo é uma de nossas emoções mais primitivas, aparece do entendimento de que a vida pode ser ameaçada, de forma real ou imaginária. É o que nos põem em alerta.

RAIVA: Também uma emoção muito primitiva. Quando a raiva entra no comando da mente, no lugar do medo, pode ser bom por nos impulsionar a fugir de ameaças e não nos paralisar.

CULPA:  advinda da percepção que podemos ter raiva de quem estamos programados para amar, gerando ambivalência. Aparece no bebê em estágios muito iniciais do seu desenvolvimento.

VERGONHA: consideramos emoção por estar relacionada a algo que pode ameaçar nossa sobrevivência, como por exemplo o afastamento de um grupo do qual dependemos para garantir a manutenção de nossa vida. 

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